"Amamos as nossas mães quase sem o saber e só nos damos conta da profundidade das raízes desse amor no momento da derradeira separação." Guy Maupassant Eis o meu desabafo quando soube que minha mãe, além do mal de Alzheimer que já tinha há alguns anos, também estava com metástase cerebral; e que lhe restaria poucos meses de vida. Ela faleceu exatamente 2 meses depois...
Mããee !!!
E agora?
Desde quando Mãe tem morte anunciada? E aí? Como é viver com o "tempo de vida" de sua própria mãe, contado? Minha mãe ainda comigo, mas até quando? Como assim viver sem ela? Vivemos há tantos anos e nunca tivemos pressa de nada... Ela sempre presente silenciosamente ao meu lado e com muita calma... Simplesmente sabia q ela estava ali, e pronto! Nunca falamos em tempo, horas, minutos, prazo expirando, nada disso!
Mãe morre mesmo? A "minha" também? E o q faço agora? Fico grudada nela até o final? Mas há final para a Mãe na vida de um filho? Que absurdo é esse, quem disse isso? Sei q foi o médico, com o papo de nada mais resta a fazer!
Olho pra ela, alienada de si mesma, frágil, um trapinho de gente usando de novo fraldas, e ainda com vestígios de seu pudor... A dor no peito vem forte, o lamento se faz presente, e atordoada nem sei definir se é mais por ela, por mim, ou pelas duas... Eu só sei q dói, e como dói!...
Brinco com ela na esperança de trocar a sua dor pela alegria! (ou será a minha?!) A alegria de ainda vê-la sorrir, por alguns instantes, até q retorne à sua fragilidade e medo constantes...
Desde os seus 3 anos de idade q ela começou a perder:
- Aos 3 anos, as duas irmãs maiores, aos 4 foi a vez da mãe, e aos 11 foi o seu pai tão amado, em quem ela havia concentrado todo o seu potencial de amor!
Ficou com fortes dores de cabeça por dias seguidos, despediu-se dele em sonho - aliás um belo sonho - e ninguém com coragem de lhe contar a cruel verdade!
( ... não foi à toa q antes de sua derradeira viagem, ela se agarrou a ele, chorando muito, e pediu q não fosse... Mas ele foi, pra nunca mais voltar ! )
Viveu criada por uma tia solteirona, q ela chamava amorosamente de "tia Dodoca"! E agora, na velhice, volta a ser cuidada! Volta a ficar dependente de cuidados pra sobreviver com dignidade...
Ironias da vida! Ela perdeu no início e, agora, de novo, em seu final de vida!
Perdeu a chance de gozar seus últimos momentos, com sanidade, compreensão, e cheia de tesão pela vida, q sempre foram sua constante! Foi uma mulher com sincero amor à vida, sem nunca ter amaldiçoado ou sequer demonstrado amargura ou revolta pelas suas perdas prematuras...
Nunca a vi lamentar-se por nada, pelo contrário, me deliciava ao ouví-la contar suas estórias dos poucos anos vividos com seu pai amado, e com um sorriso tão brilhante no rosto, q ofuscava seus olhos marejados de saudades...
Foi minha confidente e conselheira, tentou me salvar em meio às "situações limite" de minha vida. Era ela quem ia ao meu encontro, jamais meu pai! Se ela foi perfeita pra mim? Digamos q foi a mãe perfeita pra tudo o q eu nasci predestinada a vivenciar nesta encarnação! Era ela exatamente a mãe q eu precisava... E espero ter sido a filha q ela também necessitava!
Com certeza q cada filho a viu de maneira diferente, assim como toda Mãe vê seus filhos de formas distintas! Era a "mesma mãe" de seus filhos, mas foi "seis mães distintas" pra cada um deles! Estou prestes a perdê-la de vista, mas de meu coração jamais a perderei!
Eu a encontrei de verdade, dentro de mim, no momento em q ela começou a perder sua lucidez... Quanta ironia...!
Fez poesias pela vida afora! Amou incondicionalmente meu Pai, mesmo sendo um homem de difícil convivência... ( Aff Maria ! rs )
Sofreu com ele, por ele, mas ELE SEMPRE FOI SEU TUDO! E agora, ELA é o TUDO DELE!
Nunca pensei ver meu pai tão dedicado a ela... Mas eu vi !
Não sei o q restará dele com a sua partida...
No fundo, nós duas sabemos - mesmo sem sua consciência devido a doença - que suas perdas, nada mais são do q ganhos que ela está a nos ofertar. Pra quem perdeu toda a família, nos primórdios da infância, ela soube como ninguém valorizar a família q construiu! Creio q fez um pacto em abrir mão de seus últimos anos de vida, em prol do nosso crescimento...
Meu pai está a crescer em seus 83 anos, assim como todos nós...
Quem disse q crescer não dói? Dói muito, Mãããeee!!...
Siga em paz na sua hora, mas fique certa de que o meu amor e a minha gratidão, por ti, serão eternos!
Tua filha,
Helô
P.s. meu pai veio a partir exatamente 1ano e 4 meses, depois dela...
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23 de maio de 2009
Singela homenagem a minha mãe que se foi ...
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